Práticas culturais afrodiaspóricas e os Estudos do Lazer

Fernanda Abbatepietro Novaes, Bruna D’Carlo Rodrigues de Oliveira Ribeiro, Elisangela Chaves

Este trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado realizada no âmbito do Programa  Interdiciplinar dos Estudos do Lazer da UFMG, que pretende investigar a vivência de pessoas brancas e manifestações culturais negras. Aponta-se como objetivo co o estado do conhecimento produzido pelo campo do lazer a partir   das práticas culturais afro diaspóricas.  Para isto, buscou-se identificar em duas revistas especializadas nos estudos do Lazer, publicações que tratassem de tais práticas. O levantamento foi realizado a partir dos bancos de dados de duas revistas especializadas do campo do Lazer. A Licere é uma revista editada pelo Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Lazer da UFMG desde 1998, de periodicidade trimestral. A Rbel é o periódico da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Estudos do Lazer, editado desde 2014, com periodicidade quadrienal. Ambas são de acesso livre, somente aceitam artigos que não tenham sido enviados a outro periódico e utilizam o processo de avaliação por pares duplo cego. A busca foi realizada por meio do acesso aos sites das respectivas revistas e dos artigos publicados em cada exemplar entre 2018 e 2023. Na Licere foram acessados 21 exemplares, totalizando 469 trabalhos. Na Rbel, foram 109 trabalhos distribuídos em 15 edições, totalizando 578 estudos. Para a seleção do corpus do estudo, realizou-se inicialmente a leitura dos sumários de cada exemplar. Foram selecionados aqueles que continham no título, a menção a manifestações culturais que de alguma forma poderiam dialogar com a cultura afro-brasileira, como festas, folguedos, danças, comunidades tradicionais, grupos culturais e movimentos sociais. Nesta etapa foram selecionados 55 trabalhos. Em uma segunda etapa, foi realizada a leitura dos resumos dos 55 trabalhos, para identificar em quais havia uma relação explícita da manifestação estudada com os valores culturais africanos. Aqueles cuja leitura do resumo não permitiu tal identificação, foram lidos na íntegra, resultando um recorte de 12 trabalhos.  As manifestações abordadas foram: o carnaval, em dois artigos, as festas de boi, tratadas em dois estudos; a capoeira, que aparece em três trabalhos; a folia de reis e a festa de Nossa Senhora do Rosário; as práticas culturais quilombolas, tematizadas em duas pesquisas. Um dos estudos selecionados, não se ateve a nenhuma manifestação cultural específica, mas ao mapear os espaços nos quais os sujeitos pesquisados praticam seus lazeres, foram descritas a capoeira, o hip-hop, o samba, o forró, o boi da manta.   Os estudos analisados buscaram compreender as dinâmicas sociais presentes nas manifestações culturais de origem afro-brasileira, suas origens históricas e sua relevância contemporânea, analisando os rituais, as danças, as músicas, as vestimentas e as representações simbólicas presentes nessas práticas. Buscaram também, identificar seus significados e sua importância para as comunidades. Destaca-se ainda a ideia de que as manifestações culturais são espaços de resistência, onde as comunidades se reúnem para celebrar e preservar suas tradições em meio a processos de modernização e homogeneização cultural. Para analisar de que maneira os estudos do lazer tem dialogado com estas práticas, partimos da compreensão que o lazer é parte integrante da vida cotidiana das pessoas. Uma necessidade de vivenciar práticas culturais constituídas socialmente, de maneira lúdica. Essa necessidade pode ser satisfeita de múltiplas formas, segundo os valores e interesses individuais e coletivos, em diferentes tempos históricos e contextos social e cultural (GOMES, 2011). Desta forma, compreendemos que as manifestações culturais negras se constituem como práticas de lazer, que por meio de suas histórias e processos de sociabilidade, contribuem para alargar o conceito de lazer até então hegemônico. O olhar racializado para essas práticas evidencia o potencial do lazer enquanto uma importante chave de compreensão das relações raciais no Brasil.