Letramento racial em tempos de tecnologias: as resistências de Carolina Maria de Jesus em sua obra “Quarto de despejo – Diário de uma favelada”

Kelly Cristina Dias, Cathia Alves

Em tempos de tecnologia e a busca por culturas lentas nessa era digital, é fundamental sermos formados e informados com base no letramento racial, dando ferramentas e possibilidades de lutarmos contra o racismo e opressões também nas mídias e plataformas digitais. Assim, esse estudo foi realizado com o objetivo de fomentar, dar visibilidade e validar o processo de produção acadêmica e literária de notórias escritoras negras brasileiras como forma de letramento racial. O processo de letramento racial é um fenômeno considerado atual, sua discussão e debate vem sendo cada vez mais incorporados nos meios sociais e intelectuais, sendo indispensável para uma política antirracista eficaz, legítima e crítica, nos diversos setores de nossa sociedade. Assim, a partir dos relatos de si feito pela autora Carolina Maria de Jesus em sua obra “Quarto de despejo – diário de uma favelada”, temos como objetivo aprender e refletir sobre o processo de pertencimento de pessoas negras, especificamente em torno das mulheres negras e pobres brasileiras. A educação, o trabalho, a saúde, a moradia e alimentação estão entre essas vulnerabilidades que a população negra, através do racismo estrutural, é mantida refém, permanecendo sem acesso às condições básicas de sobrevivência. Trazer esta questão, é só uma parte dessa história, que se constrói a partir de um passado de escravidão, mesmo que muitos não consigam conceber tal correlação. No Brasil, em 2022 cerca de 92,1 milhões de pessoas (45,3% da população do país) se declararam pardas, desde 1991, é a primeira vez que esse grupo predomina. Outros 88,2 milhões (43,5%) se declararam brancos, 20,6 milhões (10,2%), pretos, 1,7 milhões (0,8%), indígenas e 850,1 mil (0,4%), amarelas (IBGE, 2022). Outros dados, como da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD, 2019) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), apontam também que a condição no mercado de trabalho, renda e moradia são desiguais de acordo com a cor e raça dos brasileiros, os dados indicam que a comunidade negra tem as maiores taxas de trabalhos informais e de ausência de moradias. Outro dado que justifica aprendermos e ensinarmos sobre Letramento Racial é a questão da violência. Anualmente, o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2024), lança um relatório atualizando os dados de violência no Brasil, que demonstra, por exemplo, que em 2020 pessoas pardas apresentaram taxa de 34,1 mortes por 100 mil habitantes e as de cor ou raça negra, de 21,9 mortes, o que representa quase o triplo e o dobro, respectivamente, da taxa observada entre as pessoas de cor ou raça branca, de 11,5 mortes por 100 mil habitantes. Todos esses dados de desigualdade nos ensinam que a cultura da branquitude predominou no nosso pais, e Cida Bento (2022) nos alerta para o momento do “silêncio falar”, a autora aponta para a pressa de nos debruçarmos em torno da herança de expropriação, violência e brutalidade para que não se repita. Portanto, realizamos uma revisão bibliográfica e a técnica de tratamento de escrevivência de Conceição Evaristo. E ainda, um diálogo de Carolina, com as obras de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez e Cida Bento. Carolina em suas resistências, ensina sem sorrir a importância de se comer e estar alimentado para uma vida digna, não basta o dia ser simpático, não basta os brancos serem cultos e iluminados por Deus, é preciso mais do que feijão e sal, mais do que arroz e linguiça. Quando a chuva passar é preciso dignidade e humanidade, parem de nos matar. Assim, sua obra colabora para uma educação antirracista e consciência das dinâmicas da vida de mulheres negras e pobres no Brasil.