O lazer é compreendido como dimensão da cultura constituído de vivências desenvolvidas por interesses próprios a partir de um tempo conquistado por meio de relações estabelecidas entre necessidades, deveres e obrigações. Gomes (2004). Nesta perspectiva os jovens buscam espaços na cidade para se entreter, conversar, estar entre amigos, além de consumir produtos diversos e vivenciar expressões culturais e artísticas. Por estarem localizados geralmente em áreas centrais, os Mercados Públicos têm a maior possibilidade de serem ressignificados como esses espaços de compartilhamento de lazeres, mantendo os aspectos culturais da identidade de um lugar e a praticidade do local no meio urbano em que se inserem. O centro de Belo Horizonte (Beagá) tem concentrado espaços de lazer, a partir disso, poder público e privado adotam estratégias para chamar a atenção das pessoas para ocupar as áreas centrais seja em estabelecimentos fechados ou nas ruas, como acontece com o projeto Circuito Urbano de Arte (Cura), que usa os grafites pintados em empenas de grandes edifícios do centro da cidade e possibilita a contemplação a partir do primeiro Mirante de Arte Urbana do mundo na rua Sapucaí no bairro Floresta em Beagá. Assim, objetivamos investigar as práticas de lazer dos jovens no entorno da Praça Raul Soares de Belo Horizonte, em um percurso que conecta o Mercado Novo a Galeria São Vicente e o restaurante Babel. A pesquisa foi uma investigação etnográfica, onde o pesquisador seguiu o percurso feito pelos jovens do mercado à Praça Raul Soares. Foi realizada uma descrição densa, (Geertz, 2011). Foram feitas visitas ao entorno da Praça Raul Soares – durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2024 e janeiro e fevereiro de 2025, sempre aos finais de semana. Durante as visitas, foram feitos registros (em voz, texto ou imagens) daquilo que foi observado, como por exemplo rituais, comportamentos semelhantes ou que destoam, aspectos físicos dos espaços, entre outros. Concluindo, a revitalização de locais como o Mercado Novo, a Galeria São Vicente e o restaurante Babel fizeram com que eles se tornassem pontos de encontro para compartilhamento de lazeres pelo público jovem. O Mercado Novo de Belo Horizonte foi ressignificado e hoje é polo turístico e espaço para compartilhamento de lazeres, inicialmente ocupado pelos jovens e atualmente por grupos de outras faixas etárias. De forma similar, observa-se a revitalização e ressignificação de outros espaços, como galerias e edifícios antes deteriorados nas regiões centrais da cidade. Um exemplo é o programa “Centro de Todo Mundo” da prefeitura de Belo Horizonte que prevê diversas obras da chamada requalificação do centro. Construções históricas próximas ao Mercado Novo, principalmente no entorno da Praça Raul Soares, ganham ares gourmet. O percurso identificado entre, especialmente, Mercado Novo e Galeria São Vicente ampliam as possibilidades de ressignificação de espaços da cidade, trazendo de volta a vida noturna para a Praça Raul Soares. Medidas tomadas por agentes privados e pelo poder público nesses locais contribuem para reverter quadros de abandono e degradação, embora seja necessário cuidado para evitar a exclusão social causada por processos de gentrificação. Durante as visitas viu-se que o percurso Mercado Novo para Galeria São Vicente realmente ocorre durante as práticas de lazer das juventudes. Também possuem a possibilidade de transitar pelos estabelecimentos sem necessariamente ficar parado somente em um ou outro restaurante. Além do apelo gourmet e do vínculo forte com a cultura belo-horizontina como cardápios temáticos e decorações. Por fim, os resultados apresentados reforçam a ideia de que a ressignificação de espaços urbanos vai além da reforma física: trata-se de um processo de reconexão dos habitantes locais, intermediados pelas novidades trazidas nos alimentos, bebidas, roupas e serviços ofertados.
Do mercado novo à praça Raul Soares em Beagá: ressignificação dos espaços como opção de lazer para as juventudes
Ana Cláudia Porfírio Couto, Natiele Lopes Costa, Maurício de Azevedo Couto