Subjetividades nas relações entre lazer e gênero na visão de mulheres atletas transgênero

Ana Cláudia Porfírio Couto, Vitor Lucas de Faria Pessoa, Luciano Pereira da Silva

Introdução: A partir de uma pesquisa desenvolvida no Centro Esportivo Universitário, que é o órgão responsável pelas políticas de esporte e lazer da Universidade Federal e Minas Gerais – Brasil, buscamos analisar a percepção de mulheres atletas transgênero sobre os desafios enfrentados na prática esportiva universitária em uma das maiores universidades brasileiras. Para isso, examinamos como esse grupo interage no âmbito das associações esportivas, sua participação em campeonatos e sua relação com as entidades de representação estudantil. Assim, buscamos compreender os desafios e as possibilidades que emergem na interseção entre lazer e gênero, com base na experiência e subjetividades dessas mulheres. Entendemos que o esporte é um direito fundamental, uma importante vivência de lazer e contribui para qualidade de vida. No âmbito universitário, ele desempenha um papel essencial na permanência estudantil e no combate à evasão. Esta pesquisa, para além do debate acadêmico, busca subsidiar políticas para as universidades públicas brasileiras, que buscam garantir o direito ao esporte para todas as pessoas.

Metodologia: Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, com jovens atletas que se identificam como mulheres trans. Este tipo de entrevista permite que o pesquisador tenha mais liberdade para extrapolar o roteiro de pesquisa e faz com que o ambiente da entrevista se torne mais acolhedor, algo que foi fundamental para a realização desta pesquisa. As entrevistas foram transcritas integralmente e analisadas à luz da técnica de análise de conteúdo (Bardin, 1977), abordagem que nos permite interpretar mensagens, visando identificar núcleos de sentido em textos ou discursos.

Conclusões: A análise das entrevistas revelou que as mulheres trans enfrentam dificuldades para vivenciar o lazer através do esporte universitário. Algumas entrevistadas relataram o enfrentamento de resistência de atletas cisgênero e receio quanto à reação de treinadores, o que afeta sua segurança e confiança. Todavia, outras atletas trans relataram que foram extremamente bem acolhidas por mulheres cisgênero e treinadores nas equipes esportivas. De acordo com as próprias entrevistadas, essa discrepância pode estar relacionada com a presença ou não de discussões frequentes nos cursos da universidade relacionadas às questões de gênero. Apesar dos desafios, o esporte também é visto como um espaço de acolhimento e de lazer. A associação que representa as atléticas da Universidade Federal de Minas Gerais tem um papel importante na inclusão de mulheres atletas trans em competições internas, mas a participação em torneios federados ainda é barrada pelas federações nacionais, limitando sua inserção no esporte. Os resultados parciais permitem compreender que as relações entre gênero e lazer, a partir da experiência das entrevistadas, são marcadas por desafios e possibilidades, que permeiam as diferentes subjetividades analisadas. Além disso, há um contraste evidente entre as instituições esportivas acadêmicas locais e nacionais. Do ponto de vista das estratégias para políticas de inclusão, os dados indicam um grande potencial para ações práticas que impactam diretamente a participação dessas pessoas no esporte e no lazer. Entre essas ações, destacam-se a adoção de banheiros sem gênero nos espaços universitários, a capacitação de servidores e prestadores de serviço para o atendimento de pessoas trans e a promoção de um possível diálogo entre as instituições de ensino superior e as federações nacionais responsáveis pelo esporte universitário no país.