Currículos invisíveis nas práticas de lazer: o caso do Bharbixas Esporte Clube de Minas Gerais/Brasil

Eduardo Klein Carmona, Cáthia Alves, Hélder Ferreira Isayama

As práticas de lazer em coletivos esportivos LGBTQIAPN+ têm se configurado como importantes espaços educativos não formais, nos quais currículos invisíveis operam na formação de sujeitos. A educação formal, realizada em instituições de ensino, chancela esses espaços como locais para a aprendizagem de conteúdos considerados válidos, constituídos por currículos que determinam escolhas intencionais sobre o que será ou não aprendido. Todavia, também há currículos em espaços não formais do conhecimento, manifestos em normas, regulamentos ou condutas estabelecidas na dinâmica social e na interação entre os sujeitos. Isso significa reconhecer que se ensina e se aprende em diversos contextos e lugares. Assim, os espaços de lazer, como os coletivos esportivos amadores, são também locais formadores. Diante disso, este estudo analisa os mecanismos pedagógicos e curriculares implícitos que operam na formação dos sujeitos no contexto da equipe de voleibol do Bharbixas Esporte Clube, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Para tanto, foi realizada uma inserção etnográfica junto à equipe, com acompanhamento de treinos, jogos e confraternizações, além da análise de documentos e publicações no Instagram. O esporte, enquanto conteúdo da educação formal, por vezes perpetua elementos como o machismo e a violência, o que o torna um ambiente excludente para homens gays. Na contramão disso, o associativismo esportivo gay emerge, fora dos espaços formais, para romper com a lógica opressora tradicionalmente construída que afasta esse grupo minorizado do cenário esportivo. Um fenômeno social no âmbito do lazer, que consiste na criação de entidades com fins esportivos e culturais para a prática esportiva amadora, tendo como premissa acolher sujeitos que fogem do padrão heteronormativo no que tange à sexualidade e identidade de gênero. No Brasil, a criação desses coletivos se desenvolveu a partir de 2017, com o surgimento de competições específicas para homens gays. Esse período coincide com o fortalecimento dos movimentos por visibilidade LGBTQIAPN+ no esporte brasileiro e com a crescente busca por espaços seguros de prática esportiva, em resposta aos altos índices de LGBTfobia nos ambientes esportivos tradicionais. Os resultados revelam que o Bharbixas opera com um currículo que pressupõe a educação contra formas de preconceito e discriminação. Uma das manifestações da pedagogia adotada pelo clube ocorre por meio de postagens no Instagram, com conteúdos sobre representatividade, acolhimento e felicidade, apresentando o coletivo como um espaço de segurança, socialização e promoção da prática esportiva para pessoas LGBTQIAPN+. Na equipe de voleibol, observou-se uma dinâmica educativa voltada ao alinhamento de condutas, comportamentos e discursos de seus integrantes, a fim de coibir ações desrespeitosas ou ofensivas. Para isso, foi estabelecida uma organização interna com comissões para gerir ações, com destaque para a comissão de ética, que exerce papel educativo ao “reprimir comportamentos antidesportistas, LGBTfóbicos, misóginos, sexistas, etaristas, gordofóbicos e racistas entre os integrantes da equipe”. Na convivência com o grupo, percebeu-se a presença de ações educativas e, por vezes, punitivas no cotidiano do coletivo. Tais ações decorrem da prática da “xoxação”, ou seja, do deboche presente em falas ditas em tom de brincadeira entre os atletas durante os treinos, mas que revelam preconceitos e reforçam discriminações. Expressões como “velha”, “pesada”, “imensa”, “feia” e “preguiçosa” são exemplos que, por vezes, motivam intervenções da comissão de ética. Conclui-se que no contexto do grupo de lazer investigado, existe uma pedagogia e um currículo invisível que operam como um texto cultural em prol da diversidade e do respeito pelos diversos corpos. Estes achados contribuem para o campo dos estudos do lazer ao evidenciar como espaços não formais podem constituir importantes ambientes educativos que contestam lógicas opressoras presentes no esporte.