Para além do tempo lento: notas sobre a experimentação do tempo a partir de Henri Bergson

Francisco Welligton Barbosa Jr, José Clerton de Oliveira Martins

Com a invenção do relógio, durante a Revolução Industrial, as temporalidades cotidianas tornaram-se cronometradas, quantificadas e orientadas segundo o tempo de trabalho. E a cada invenção tecnológica, as temporalidades mais são racionalizadas e compartimentalizadas – o que atualmente podemos notar a partir das relações cotidianas com a cultura digital, muitas vezes atravessadas pelo neoliberalismo. Ainda na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, na contramão da quantificação e compartimentalização do tempo, da vida, assim como da ciência, o filósofo francês Henri Bergson propôs uma outra perspectiva para se pensar o tempo: a partir de um viés qualitativo – em que poderíamos destacar inclusive o que compreendemos como “tempo lento” ou “tempo da experiência”. Sabendo isso, o presente texto tem como objetivo caracterizar a perspectiva de tempo apresentada pelo filósofo apontado. Este trabalho se conduz a partir de uma abordagem qualitativa, em que realizamos uma revisão bibliográfica de caráter narrativo com base em obras de Bergson e de leituras de estudiosos sobre o autor, a exemplo de Gilles Deleuze. As obras consultadas foram aquelas que, em todo ou em parte, se dedicam às questões do tempo. Após a leitura, foi-nos possível o desenvolvimento de três tópicos de discussão, tomando como base conceitos centrais da obra bergsoniana e que se interligam: tempo e duração; tempo e memória; tempo e diferença. Do percurso podemos inferir que a perspectiva bergsoniana convoca modos de afirmar o tempo a partir de um movimento de duração qualitativo, em que o tempo não é medido. Ele é compreendido enquanto uma possibilidade de constante criação da vida. Não se trata de pensar quantas atividades realizamos, mas como vivemos o tempo, como vivemos a vida. Tal perspectiva, além de alternativa, propõe-se desafiadora à quantificação do tempo e da vida, visto que esta quantificação mais se potencializa em nossas culturas a partir das hiperconexões ao digital.