A dissertação com o título *O Caso de Cibele: Um estudo sobre o processo de individuação no isolamento social surge da experiência clínica de atender uma senhora idosa que traz em sua fala uma vida de muito sofrimento e uma percepção da metanóia apenas com o advento do isolamento social da pandemia da COVID-19. Tive como objetivo compreender, a partir de acompanhamento de caso, o processo de individuação dessa mãe idosa no isolamento social com base no estudo de um caso clínico. Tratou-se de um estudo baseado em uma pesquisa de abordagem qualitativa, com cunho empírico, exploratória e viés junguiano, ao qual tive a oportunidade de discorrer sobre a importância da mitologia com o olhar de Campbell (1997), Kerényi (2011) e Jung (2011). No desenvolvimento da pesquisa, objetivou-se, ainda, realizar o levantamento do caso clínico através da análise dos prontuários clínicos que contém a história de vida da paciente, suas experiências, desejos, expectativas, sintomas e sonhos; analisar a influência do
isolamento social no processo de individuação, bem como respectivas consequências psicológicas; e descrever como esta mãe idosa reconfigurou sua velhice no período pós isolamento social. A metodologia utilizada foi a qualitativa com base no método junguiano de escuta clínica, por meio dos atendimentos clínicos realizados com a paciente. Os dados analisados foram os prontuários clínicos, as narrativas da paciente e seus sonhos. A interpretação dos dados seguiu o método junguiano proposto por Penna
(2005) – o processamento simbólico através da apreensão e compreensão dos símbolos – que nos levam a inferir que a percepção da metanóia pela paciente foi intensificada pelo processo de isolamento social, quando foi possível o mergulho real em si. Cibele experienciou uma metanóia tardia, tendo em vista o avançar da idade, 73 anos, e a reestruturação de sua vida permanece em processo até hoje, pois Cibele ainda enfrenta o longo caminho de aceitar que algumas mudanças desagradáveis permanecerão com ela.
O processo de individuação não é algo suave. Só nos tornamos nós mesmos quando integramos conteúdos inconscientes dolorosos, através de autocrítica e responsabilidade.E é isso que Cibele vem fazendo ao longo de seu caminho. Ela tenta ouvir seu inconsciente através dos sonhos, questiona suas opiniões irrefletidas através de reflexões, fala mais o que sente para pessoas próximas e integra, gradualmente, suas sombras a partir do que é possível. Compreendi, a partir de Cibele, que o processo de individuação do idoso não é romântico, e sim doloroso. E para ser enfrentado precisa haver um despertar acompanhado de criatividade. É necessário olhar para o caminho percorrido, encontrar suas partes esquecidas no percurso e fazer as pazes com a criança interior. Se o idoso estiver preso apenas à polaridade Senex será ranzinza e não verá sentido na vida. Há, mais uma vez, a necessidade de um equilibrio de opostos para seguir adiante.