Homenagens digitais? Um levantamento das postagens sobre o aniversário da jogadora Marta e as reações no Instagram

Fernanda Santos de Abreu, Eduardo Klein Carmona, Andreza Gonsalez Rodrigues Mota

O esporte perpassa por uma construção que carrega marcas culturais, que conectam uma determinada prática esportiva, com a perspectiva de um imaginário do que seja masculino e/ou feminino (Abreu, 2022). Esse imaginário popular de que, futebol é para menino e boneca para menina, é construído culturalmente, sustentado pela necessidade da sociedade em incorporar papéis de gênero na direção de uma identificação do que é ser masculino e/ou feminino (Devide, 2021). 

A prática do futebol por mulheres, por exemplo, perpassa por diversas barreiras. No Brasil, foi proibida por lei por mais de 35 anos, o que trouxe atrasos significativos para o desenvolvimento da modalidade, bem como potencializou discursos preconceituosos sobre a presença de mulheres no futebol (Ribeiro, 2023). 

Ainda assim, em meio a esse complexo cenário, surgem mulheres de destaque no universo futebolístico. No cenário brasileiro, a jogadora Marta Vieira da Silva, é destaque mundial, eleita 6 vezes a melhor jogadora do mundo pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), além de ser a maior artilheira entre as seleções brasileiras masculina e feminina, tornando-se símbolo de inspiração no esporte (Januário, 2017). 

Dessa forma, o presente trabalho objetiva analisar as interações do público nas postagens sobre o aniversário da jogadora Marta no Instagram, no perfil da Seleção Feminina de Futebol Brasileira (@selecaofemininadefutebol), identificando como os usuários manifestam apoio ou rejeição à atleta. A partir da análise dos comentários, pretende-se compreender como essas expressões virtuais refletem estigmas de gênero e/ou práticas de reconhecimento e resistência no ambiente digital.

Ressalta-se, que o uso de mídias sociais no contexto contemporâneo, tem se constituído como uma importante atividade de lazer no cotidiano das pessoas, espaço no qual suas subjetividades se manifestam mediante suas interações digitais. Essas expressões virtuais, podem potencializar a construção de um espaço virtual que (re)produz estigmas sociais, bem como pode fomentar práticas de resistência cultural (Silva et al., 2020).

Dessa forma, este estudo apresenta-se com caráter qualitativo, buscando compreender e interpretar os diferentes fenômenos sociais, considerando os sentidos, significados e intenções atribuídos a ele (Minayo, 2012). Para isso, foram selecionadas todas as publicações presentes no perfil supracitado, realizadas no dia 19 de fevereiro de 2025, dia do aniversário da Marta e destinadas a parabenizá-la. 

A escolha dos comentários foi feita de forma intencional, almejando contemplar, no máximo 5 comentários de apoio/reconhecimento e 5 de contestação/rejeição em cada publicação. Destaca-se que tais comentários foram agrupados em duas categorias, sendo a primeira nomeada de: “Marta: A Rainha” e a segunda intitulada: “Marta: A Rainha Que Não Ganhou Nada”.

Foram identificadas 7 publicações que se encaixavam no critério estabelecido. No que se refere as duas categorias de análise, buscou-se agrupar comentários que repetiam determinado padrão de interação. Foram selecionados 20 comentários no total.

Na categoria, “Marta: A Rainha”, identificou-se interações de comentários de apoio e reconhecimento, levando em consideração sua performance atlética, sua importância para a história do futebol de mulheres bem como os prêmios conquistados em sua carreira. Na segunda categoria, “Marta: A Rainha Que Não Ganhou Nada”, identificou-se comentários de contestação, rejeição e descrédito a Marta, cujo os comentários, relacionavam-se a sua performance , carreira atlética e estereótipos de gênero.De forma geral, percebeu-se que as interações da primeira categoria demonstravam admiração e gratidão e, em sua maioria, eram realizadas por perfis de mulheres. Em contrapartida, os apontamentos negativos eram quase em sua totalidade feitos por perfis de homens e revelavam desprezo a carreira e a trajetória da jogadora, bem como reforçavam questões de gênero.