A convergência entre a slow culture e as epistemologias feministas oferece um terreno fértil para repensar radicalmente os sistemas de avaliação no ensino superior. Este trabalho teórico-reflexivo explora como estas duas correntes críticas, aparentemente distintas, convergem na contestação dos regimes classificativos que estruturam a universidade contemporânea e na proposição de alternativas pedagógicas transformadoras.
As lutas feministas no contexto académico têm, sistematicamente, questionado a pretensa neutralidade e objetividade das classificações numéricas, revelando como estas reproduzem hierarquias de género, raça e classe. Os sistemas avaliativos tradicionais, ao privilegiarem determinadas formas de conhecimento e expressão intelectual, perpetuam desigualdades estruturais e silenciam saberes marginalizados. As perspetivas feministas têm consistentemente denunciado como as métricas avaliativas convencionais favorecem abordagens lineares, objetivistas e descontextualizadas do conhecimento. Estas críticas apontam para a necessidade de métodos avaliativos que reconheçam a natureza situada e relacional da aprendizagem, valorizando a diversidade epistémica e ontológica.
Por seu turno, a filosofia slow propõe uma reconceptualização do tempo educativo, valorizando processos reflexivos, colaborativos e qualitativos em detrimento da quantificação e aceleração constantes. A slow culture na educação questiona o imperativo da velocidade e da eficiência produtiva, defendendo espaços pedagógicos onde o tempo para o pensamento profundo, o diálogo substantivo e o desenvolvimento integral sejam prioritários. Esta abordagem resiste ativamente ao regime da urgência que caracteriza a universidade neoliberal contemporânea, oferecendo uma crítica estrutural às temporalidades capitalistas que moldam as instituições educativas.
No contexto atual, marcado pela emergência e rápida evolução da inteligência artificial generativa, torna-se ainda mais premente e urgente repensar os sistemas avaliativos tradicionais. As ferramentas de IA desafiam fundamentalmente os métodos de avaliação assentes em produtos finais, como ensaios e exames, tornando-os cada vez mais vulneráveis e questionáveis. Este momento disruptivo abre uma janela de oportunidade singular para a implementação de alternativas já propostas pelos movimentos feministas e pela cultura slow, que privilegiam o processo sobre o produto, a colaboração sobre a competição, e a reflexão profunda sobre a reprodução de conteúdos. A IA generativa, paradoxalmente, pode catalisar a transição para modelos avaliativos mais humanizados e contextuais, precisamente aqueles que têm sido marginalizados no paradigma educativo dominante.
Através de uma abordagem crítica da literatura existente, este trabalho visa estabelecer pontes conceptuais entre estas correntes de pensamento, identificando convergências que podem conduzir a uma transformação radical das práticas pedagógicas universitárias. Argumentamos que a eliminação ou reformulação radical dos sistemas classificativos, quando articulada com princípios da cultura slow, constitui uma resposta não apenas desejável, mas necessária face aos desafios impostos pela IA generativa ao modelo educativo vigente.Como contribuição final, apresentamos uma proposta teórica de práticas pedagógicas concretas inspiradas nesta convergência, com o intuito de fomentar um debate alargado sobre a necessidade de transformar estruturalmente o tempo, o espaço e as relações de poder no contexto universitário contemporâneo. Estas propostas incluem sistemas de avaliação baseados em portfólios reflexivos, metodologias de coavaliação dialógica, práticas de mentoria horizontal e espaços para a construção colaborativa de conhecimento, todas enraizadas numa ética feminista do cuidado e numa temporalidade slow que valoriza a profundidade sobre a extensão.