Relação entre o lazer e ócio e os modos de consumo de bebidas alcoólicas em jovens de Luanda

João Fernando de Brito Demba

O consumo é uma prática do ser humano, que além de estar ligada a bens e serviços, ao longo dos tempos por várias razões (capitalismo, ideologias), tem apresentado uma forte ligação com questões como a utilização do tempo, subjetivação e o ócio – três camadas que contribuem para o melhor entendimento do consumo. Aliás, o consumo é um tema central do globo, atravessando todas as esferas da vida, impondo formas de pensamento, organização social, criação e recriação da cultura, molda comportamentos, impulsiona e satisfaz o avanço tecnológico, define o que social e mundialmente é observado e tratado como bom e mau. Além de se tornar numa categoria-chave da modernidade (Friedman, 1982), através do consumo, são acionados mecanismos de constituição e expressão de identidades. Talvez por isso, Júnior (2001) evidencia a explosão de microidentidades impulsionadas pela dimensão simbólica do comportamento do consumidor. 

Em Angola, por exemplo, sexta-feira é considerado o “dia do homem”, ou seja, após o expediente, homens e mulheres, de forma isolada ou organizados em grupos de 3, 4 ou mais indivíduos têm “autorização” para não estar em casa, divertir-se, e em geral, fazer consumo de bebidas alcoólicas. Ou seja, é um dia, que dependendo da zona da cidade e perfil do indivíduo, o tempo é usado de forma diferente, quer para diversão, como para o consumo, podendo ser, de bebidas alcoólicas. O estudo da Market Angola (2019) reporta que cerca de 27% de angolanos com mais de 18 anos de idade, consomem bebidas alcoólicas, geralmente 3 vezes por semana, cuja preferência é a cerveja, em geral, adquirida em Cantinas, residência de vizinhos, na rua (roulottes), bares. Numa lista de dez marcas, a cerveja Cuca aparece como a mais consumida.

Usando a observação participativa em locais habituais de venda e consumo de bebidas alcoólicas – restaurantes, cantinas, roulottes, em zonas urbanas e perí-urbanas, buscamos promover uma discussão em torno dos sentidos e significados produzidos pelas práticas de consumo de bebidas alcoólicas em jovens residentes em Luanda – Angola, e a relação destas práticas de consumo, com questões como a subjetividade, tempo e o ócio.Historicamente (Fontenelle, 2000), as pesquisas iniciais sobre as práticas do consumo centravam-se em teorias e campos específicos como o da economia, gestão, marketing, psicologia, comunicação, em geral, com resultados “regulares”, globalmente aceites em termos das teorias, princípios, metodologias. Fontenelle (2000), propõe dois principais eixos teóricos para o estudo da cultura do consumo: a teoria do capitalismo e a teoria das paixões. Mas Featherstone (1995), sugere três perspectivas: produção do consumo, modos de consumo, prazeres emocionais do consumo. Para Barbosa (2004), as teorias do consumo ajudam a responder questões acerca dos processos de subjetivação que conduzem a determinadas práticas do consumo. Com a teoria do capitalismo e da produção do consumo, o estudo da cultura do consumo tem uma perspetiva mais económica. Já a teoria das paixões e a dos modos de consumo, bem como dos prazeres emocionais do consumo sugerem uma abordagem da cultura do consumo, mais simbólica, ao nível dos significados, sentidos e dos seus efeitos no comportamento das pessoas. É sobre estas três últimas perspectivas teóricas: paixões, modos de consumo, prazeres emocionais do consumo, aglutinadas em uma única teoria, que passaremos a tratar neste texto de “modos de consumo”. Para (Laerca e Rocha, 2021), o homem é caracterizado como um ser de paixões, e é tarefa primária, da filosofia, identifica-las e analisá-las a fim de a partir daí colaborar efetivamente com a convivência entre os indivíduos. Porém, para identificar as paixões, é necessário categorizar e compreender os significados do movimento das práticas, no caso em concreto, das práticas do consumo.