Conversas que curam: comunicação comunitária como prática de desaceleração na saúde pública

Luciana de Araujo Gomides

Num tempo marcado pela aceleração informacional, pela fragmentação da atenção e pela hegemonia de modelos comunicacionais verticais e imediatistas, a comunicação comunitária resiste como uma prática de informar, mas sobretudo, de cuidado. Este estudo propõe uma reflexão crítica sobre o papel da comunicação popular e comunitária na promoção da saúde pública, a partir de uma investigação empírica realizada nas cidades de Goiânia (Brasil) e Porto (Portugal). O objectivo foi compreender de que forma estas práticas comunicacionais — muitas vezes invisibilizadas — podem contribuir para a construção de vínculos, a escuta ativa e a disseminação de informação acessível e culturalmente situada.

A análise parte de um inquérito online com 98 participantes e de uma leitura comparativa entre os dois contextos urbanos, com base em indicadores de percepção, clareza e eficácia comunicacional. Os resultados demonstram que, embora os meios digitais como a internet sejam percebidos como eficazes, existe uma valorização expressiva de canais alternativos — como rádios locais, redes sociais informais e acções porta-a-porta — sobretudo entre grupos etários mais velhos. Estes canais possibilitam uma temporalidade comunicacional distinta, em que o tempo da escuta, do esclarecimento e da construção coletiva de sentido ganha centralidade.Neste enquadramento, defende-se que a comunicação comunitária não apenas amplia o acesso à informação, mas também resgata o valor do tempo partilhado, do encontro e da construção horizontal do saber — constituindo-se como um espaço de ócio ativo e cuidado. Em contextos de saúde pública, estas práticas revelam-se essenciais para promover bem-estar, confiança e literacia, operando numa lógica de desaceleração que desafia os modelos tradicionais de mediação informacional.