Notas sobre o detox digital no turismo

Luiza Ester Lima de Oliveira Rosa, José Clerton de Oliveira Martins

Com o aumento significativo do acesso à internet no planeta, oportunidades e desafios profundos surgem desse contexto. A todo instante, fluxos de informação atravessam corpos e embaraçam o tempo, promovendo simultaneamente conexões e rupturas, presenças e ausências. Não se trata apenas de estar on-line, mas de viver em um cenário em que o digital atravessa a experiência humana em diferentes camadas — simbólicas, afetivas, políticas (Castells, 1999; Han, 2021; Lemos, 2009; Martins, 2018; Martino, 2014; Sodré, 2002, 2006).

Em meio às possibilidades da hiperconexão, observa-se que fluxos contínuos de informações e demandas dessa conjuntura também podem levar a um desejo de contraposição e escape, como movimentos de afastamento digital. Essa prática tem sido popularizada mundo afora como detox digital (do inglês, digital detox). Especialmente no Brasil, o termo tem sido difundido pela imprensa e por usuários de redes sociais. Podemos compreender o detox digital como uma pausa temporária, voluntária e subjetiva no uso de tecnologias, principalmente de smartphones (celulares com internet) (Ester, 2021; Ghita & Thorén, 2021; Rosa, 2025; Syvertsen & Enli, 2019; Trindade & Silva, 2022).

Dessa maneira, o detox digital pode ser posicionado como uma possível resposta à sobrecarga de informações e à normalização da conectividade 24 horas por dia, sete dias por semana — sendo reconhecido como uma prática que vai além de um mero afastamento do digital (Crary, 2014; Syvertsen & Enli, 2019). Na literatura sobre o tema, encontra-se, por exemplo, perspectiva sobre experiências de turismo desconectado e suas nuances no contexto hiperconectado (Syvertsen, 2022).

Nesse contexto, este trabalho busca refletir sobre o detox digital no âmbito do turismo. Logo, indagamos: como o detox digital se relaciona com o turismo? Quais os impactos dessa prática em viagens? Trata-se de uma pesquisa exploratória e teórica, com método de abordagem qualitativa, construído a partir da Revisão de Literatura (RL) (Flick, 2013; Hohendorff, 2014).

O intuito é refletir abertamente sobre o tema, de forma flexível, articulando discussões que possam contribuir para o entendimento sobre o detox digital no turismo. Buscamos realizar uma análise interpretativa, com o objetivo de articular os conhecimentos em torno do tema e provocar novas compreensões (Flick, 2013; Rother, 2007). As fontes incluem artigos científicos e materiais de plataformas on-line, ambos de acesso aberto. Para o levantamento bibliográfico com artigos científicos, buscamos o descritor “detox digital” nas bases de dados SciELO, CAPES, EBSCO e ScienceDirect, abrangendo estudos de acesso aberto, publicados entre 2018 e 2023.

O estudo é motivado pela curiosidade acadêmica em torno do tema e pelo desejo de compreender as nuances, questões e possibilidades do detox digital em diferentes aspectos. Neste caso, especificamente, no turismo. A pesquisa tem como base o conhecimento interdisciplinar, com reflexões dos campos da Comunicação e da Psicologia.A partir da discussão, entende-se que experiências de turismo desconectado podem ser valorizadas como uma possibilidade de se reconectar com a natureza e consigo mesmo (Syvertsen, 2022). Ao mesmo tempo, compreende-se que o turismo de detox digital pode não ser igualmente acessível a todos, evidenciando questões de privilégio no contexto hiperconectado. Além das percepções e motivações variadas entre perfis socioeconômicos e das diferenças de acesso à conectividade digital, destaca-se que muitos desses serviços exigem investimento financeiro e organização de tempo, o que pode limitar a prática a determinados grupos. Essa discussão também evidencia o detox digital como uma tendência de mercado (Syvertsen & Enli, 2019), especialmente no âmbito turístico, e sua ambivalência neste contexto.