A cidade de Belém, Brasil, situada no estado do Pará, foi fundada a partir de aldeias de povos indígenas e pela colonização portuguesa na atual Baía do Guajará. A cidade se desenvolveu como uma das principais expressões da ocupação europeia e da confluência entre populações indígenas e colonizadores. Ao longo dos séculos, a cidade foi se produzindo em torno de elementos coloniais que fizeram as construções e modificações urbanas se organizarem “de costas” para a baía, para uma determinada parcela da população. Esse movimento se manteve mesmo durante as grandes modificações realizadas por um de seus gestores, Antônio Lemos (que administrou a cidade entre 1897 e 1911), criador uma série de intervenções importantes para o reordenamento da cidade, com alargamento de ruas para modernizar a cidade na chave haussmanniana, e a ruptura de práticas locais de sociabilidade por meio da ideia de lazer provinda de elites europeia. Essa perspectiva se instalou com a criação de diversos espaços de lazer na cidade como praças, parques, e com a criação de teatros, palacetes e outros espaços de cultura. Tal adaptação foi marcada por disputas entre um “viver” das classes populares e as formas de viver das elites, inspiradas em centros como Paris, criando-se a ideia de Belém como “a Paris na América” em plena Belle Époque amazônica. Nesse período foram construídos o Bosque Rodrigues Alves (1883), Museu Emilio Goeldi (1911), Teatro da Paz (1878,) entre outros. O século XX representou a consolidação dessas novas práticas na cidade, que teve o Ver-o-Peso, conjunto de feira e mercados finalizados em 1901, como expressão da ideia de “regionalidade”, divergindo da nova dinâmica imposta. A busca por espaços de lazer para uma pretensa melhora na qualidade de vida em Belém passa por intervenções pontuais no período da ditadura militar brasileira (1964-1985) e da requalificação de diversos espaços durante o final do século XX, com propostas de diversas e por vezes opostas sobre seus usos (Estação das Docas, Feliz Lusitânia, Ver-o-Rio etc.). Durante a primeira década do século XXI, essas reformas arrefecem tendo em vista gestões refratárias às reformas urbanas para o lazer (excetuando-se a orla denominada Portal da Amazônia, inaugurado em 2012). Com a realização da COP 30 em Belém, houve uma movimentação de capitais financeiros e de ações dos governos novamente na cidade, capitaneadas por obras de impacto na sua configuração urbana, marcadas pela criação, adaptação e reformas de espaços que tem como principal mote o lazer (e o turismo como razão econômica). Os espaços foram criados e adaptados reproduzindo a lógica ainda das intervenções da Belle Époque, ou seja, soterramento das práticas já existentes das classes populares em prol de uma uniformização das ações e comportamentos de lazer e sociabilidade dados pelo espaço físico. Participam desse empreendimento as requalificações do Mercado de São Brás, novas intervenções no Ver-o-Peso, os Parques Lineares da Doca de Souza Franco e da Avenida Tamandaré, o Parque da Cidade, a ampliação do Porto Futuro e avenidas parque como a Avenida Liberdade. Os lazeres populares são definitivamente substituídos por contemplações de arvores artificiais à beira da floresta amazônica, grande quantidade equipamentos e obras orientadores de práticas, como o Pavilhão de Economia Criativa, o Centro Gastronômico e quadras esportivas no Parque da Cidade. O presente estudo aborda a nova posição da cidade sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas COP 30 em um movimento recorrente de reorganização do lazer, de espaços culturais e de espaços públicos dissociado de práticas comuns das populações da Amazônia.
Belém, cidade da COP 30: conexões entre a necessidade do lazer e as obras de requalificação urbana
Silvio Lima Figueiredo, Mirleide Chaar Bahia