A crescente utilização de modelos de Inteligência Artificial (IA) na produção literária, em particular na poesia, levanta questões fundamentais sobre o tempo, a autoria e o ritmo da criação. Esta comunicação propõe uma reflexão crítica sobre o aparente paradoxo entre a aceleração tecnológica inerente aos sistemas de IA e a natureza lenta, contemplativa e reflexiva da leitura e escrita poética. A partir de um corpus de poemas gerados por IA em interação com input humano, será analisada a possibilidade de encarar a criação algorítmica não como substituição da escrita humana, mas como espaço experimental para reconfigurar a relação com o tempo, o texto e a presença estética. Assumindo-se como um exercício prático e experimental, a comunicação integra a apresentação de exemplos de poesia produzida com recurso a modelos de linguagem, refletindo sobre os seus processos, limites e possibilidades. O objetivo não é validar a máquina como sujeito poético, mas compreender de que forma a sua intervenção pode ser ressignificada através de uma ética da lentidão, da escuta e da colaboração. Coloca-se assim a hipótese de que a IA pode ser convocada para práticas literárias lentas, que desafiam o imediatismo e promovem um outro ritmo de atenção, fruição e presença estética.
Escrever devagar com máquinas: poesia gerada por IA e o paradoxo da criação acelerada
Andreia Oliveira